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DOLOGRAMA DE UM NASCIMENTO

 
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Autor Mensagem
Sílvia



Registo: 24 Ago 2005
Mensagens: 97
Local/Origem: Odivelas

MensagemColocada: Dom Dec 14, 2008 4:07 am    Assunto: DOLOGRAMA DE UM NASCIMENTO Responder com Citação

18h00 – Desconforto ao nível dos rins que se manifesta pontualmente sob a forma de dores ligeiras – sinal para me estender um bocadinho a descansar – assim faço;

Das 23h00 às 6h00 – Contracções ligeiramente dolorosas, semelhantes a dores menstruais – sinal de que está para começar o trabalho de parto e devo garantir que está tudo preparado – assim faço: levo a noite a rever mentalmente todos os preparativos;

08h00 – Perda do rolhão mucoso. Não há contracções nem qualquer tipo de desconforto, em sinal de que a natureza me concede algum tempo para ultimar preparativos que recordei em falta ao longo da noite – assim faço;

10h00 – Não há contracções nem qualquer tipo de desconforto, em sinal de que a natureza me concede mais algum tempo para descansar – assim faço: deito-me. Sinto dois jactos involuntários de líquido;

11h00 – Não há contracções, mas os dois sinais já recebidos (rolhão mucoso e líquido) dizem-me que devo estimulá-las – assim faço: mantenho-me activa na realização de tarefas domésticas preparativas do parto;

15h00 – CONTRACÇÕES FORTES, de 6 em 6 minutos – este ritmo marca-me o compasso de actividade e é o sinal de que preciso para circular, parar, circular, parar, circular, parar... – assim faço, ao longo de uma hora. As dores dizem-me ainda que é hora de estar de pé – se me sento, uma pressão tremenda e dolorosa no ânus obriga-me imediatamente a levantar, e eu aceito a orientação – mantenho-me de pé;

16h00 – CONTRACÇÕES FORTÍSSIMAS de 4 em 4 minutos, em sinal de que o ritmo mais activo de deambulação tem de abrandar e de que se impõe outro padrão respiratório. Sinto necessidade de ficar cada vez mais parada por crescente incapacidade de deambulação e para poder “ouvir bem as dores”, certa de que me dirão o que fazer a seguir – assim é: debruço-me sobre a bola de parto, balançando-me para a frente e para trás e o alívio é imenso. Chego a dormitar;

17h00 – O alívio quase perfeito das dores dá-me força para continuar e tenho a percepção perfeita de que naquelas circunstâncias está tudo muito bom, mas estacionado, e eu quero o parto a andar, é preciso chamar pelas dores para me virem de novo orientar, dizer-me em que fase me encontro e o que devo fazer com o meu corpo para ajudar o meu filho a chegar cá fora – assim faço: ponho de lado a bola e volto a ficar de pé. As dores voltam, violentíssimas, e permitem-me visualizar, de forma quase cinematográfica, o caminho descendente do meu bebé. Sinto-me em verdadeiro trabalho de cooperação;

17h30 – As dores, à razão de uma contracção por minuto, mantêm-se um auxiliar precioso na forma como me orientam física e mentalmente, mas, de tão fortes e frequentes, levam-me à exaustão e dizem-me “deita-te” – assim faço: deito-me de lado, na cama, ainda não consciente de como aquela ordem é importante para o esforço hercúleo a que serei chamada dentro de uma hora...

18h00 – Fase de transição – aquela fase em que pensamos: “Um grau mais acima na escala da dor e sucumbo! Não aguento mais! É o limite! O corpo agita-se, geme, transpira, já não há palavras, só olhos arregalados e toda a minha consciência focada na dor que exige uma massagem que nunca aprendi, mas que naquele instante a dor me diz como fazer, ou como pedir ao meu marido que a faça – os ossos da bacia empurrados com toda a força para baixo. Alívio. A dor não podia ter sido mais certeira na massagem que pediu, na forma como me orienta;

18h10 – De pé, de novo, que o intestino está a ameaçar funcionamento e a violência da dor deixa-me a arder de calor e dá-me ordem para me despir – assim faço. Começa a vontade incontrolável de fazer força, ao ritmo das contracções. Fazer força apaga as dores e se o meu organismo não entrasse instantaneamente neste jogo, não sentindo dor, não sentiria necessidade imperiosa de fazer força para a apagar. É nisto que reside o prazer inigualável deste esforço de expulsão, nesse duplo alívio de apagar a dor e de estarmos na iminência de pôr cá fora um filho – um alívio também, físico e emocional.

18h20 – Agora, a vontade e o prazer de fazer força são tais, que suplantam largamente a dor. Vem o riso, a gargalhada. A dor desaparece, porque pura e simplesmente deixa de fazer falta. As contracções, potentes, mas agora saborosas, limitam-se a ditar o ritmo do meu prazer – FORÇA! FORÇA! FORÇA!

18h30 – Que bem trabalhou a dor que te fez nascer, filho!

Hoje deixo este relato, ditado pela cronologia das horas. Não é um relato de parto, porque procurei retirar do meu parto apenas a dor. Fiz um esforço de memória para seguir exclusivamente a linha da dor no meu parto. Para quê? Para que acreditem na minha garantia: A DOR DE PARTO TEM FUNÇÃO. É preciso ouvi-la. E quem não a deixar falar não é pior mãe por isso, mas virou as costas a um aliado. Ora, num parto, como na vida, cada um escolhe os aliados que quer.
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joana zilhao



Registo: 27 Jan 2007
Mensagens: 33
Local/Origem: Porto

MensagemColocada: Seg Dec 15, 2008 2:55 pm    Assunto: Responder com Citação

Silvia,

Que incrível descrição de um parto!!! Fiquei maravilhada e com lágrimas nos olhos...
Adorei simplesmente,
Parabéns e felicidades
Bjos
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Sílvia



Registo: 24 Ago 2005
Mensagens: 97
Local/Origem: Odivelas

MensagemColocada: Seg Dec 15, 2008 3:49 pm    Assunto: Responder com Citação

Olá, Joana!

Deixa-me só esclarecer o seguinte: o que aqui tens não é a descrição do meu parto, essa podes ler no testemunho que deixei neste mesmo site. O que aqui vês, exactamente como disse, são as minhas dores de parto. Felizmente, o nascimento do meu filho foi ainda mais bonito e completo do que aqui vês. Tal como não é justo fazer a avaliação de um jogo de futebol pelo mero visionamento da repetição dos golos, também se torna muito redutor seguir este maravilhoso episódio da minha vida unicamente através desta cronologia da dor, embora seja bonita, também concordo.

Senti que era importante levar o meu parto ao alambique para lhe destilar a dor, quase despida de contexto, numa altura em que, finalmente, a discussão em torno das analgesias no parto está ao rubro. Queria muito conseguir transmitir às mulheres portuguesas a importância da dor no parto. Queria que se concedessem, no mínimo, o privilégio de experimentar passar pelo nascimento de um filho de mão dada com a dor, sem absurdos exercícios de abstracção, para fingir que a dor não está lá; sem o apelo precipitado à farmacologia; sem fileiras cerradas contra o inimigo de umas horas... Por umas horas apenas, gostava realmente que dessem ouvidos à dor, que lhe perguntassem: "Que queres tu de mim? Que queres que faça agora?" É que tem sido tão comum ver centrar as discussões sobre as epidurais nos efeitos sobre a mãe e o bebé (nada desprezíveis, bem entendido!)... e parece que entretanto toda a gente se esquece de perguntar pela razão de ser da dor. Porque o "parirás com dor" bíblico não representa senão um terrrível ferro cultural, com que nos marcaram a testa. É já tempo de ver as coisas sob outra perspectiva, não? É isso que gostava de transmitir com a minha experiência - a dor no parto abre-nos caminho por uma viagem da qual saímos poderosíssimas. Repara bem que falei em VIAGEM, não falei em luta. Eu não procurei nunca derrotar as minhas dores de parto, pelo contrário, dei-lhes o lugar da frente para me facilitarem a orientação que senti que precisava! E nem queiras saber como se torna doce um parto assim! Só tenho pena de não conseguir ser muito feliz com as palavras, sinto-me mal sucedida escrevendo... Ai! Se vos conseguisse falar do mérito dessas dores... Mas o máximo que consigo é isto que aqui deixo...

Obrigada, Joana.
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Sílvia



Registo: 24 Ago 2005
Mensagens: 97
Local/Origem: Odivelas

MensagemColocada: Seg Dec 15, 2008 3:58 pm    Assunto: Responder com Citação

Só mais uma achega para a reflexão, de que me lembrei agora:

Para além de ter pena que a maior parte das mulheres não se concedam a si próprias um parto assim, também imagino, com pena, o dia em que pura e simplesmente deixaram de o saber ou conseguir fazer, ainda que queiram, tal é a força com que a Civilização insiste em intervir no parto... De tal forma que não me espantaria nada que a recuperação de um mérito que sempre foi nosso viesse a passar um dia por uma necessidade de reaprendizagem formal. Já cheguei a imaginar "aulas de preparação para o parto com dor". Se calhar um dia vai ser preciso...

;)
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S. Oliveira-BioNascimento
Site Admin


Registo: 25 Mai 2005
Mensagens: 477

MensagemColocada: Ter Dec 16, 2008 12:31 am    Assunto: Responder com Citação

Fantástico Sílvia! Só tu!!

Obrigada!

Ainda este sábado dei uma pequena worksho no Centro Pré e Pós Parto exactamente sobre:

Porquê os medos do parto
Como ultrapassar a dor do parto

Nem imaginas o gozo que me deu mais uma vez estudar todo este processo da dor do parto. É incrível como a natureza desenhou esta dor.
Se as mulheres conhecessem bem o porquê desta dor, a cadeia de hormonas e como a dor é fundamental para ajudar o bebé no seu percurso, acredito que muito do que se está a passar no parto seria diferente. A dor é a nossa grande GUIA de todo o processo, ela indica-nos se ele está a correr ou não com normalidade, ela mostra-nos a posição certa. É claro fundamental que estejamos LIVRES! Como tu estiveste!

Lamentavelmente o acolhimento que temos nos nossos hospitais elimina estas qualidade e a dor passa de aliada a alvo a abater. É pena! Pois como diz Mónica Cernich no seu poema O nascimento:

"Nascimento, Doce dor"

Não condeno quem receia esta dor, lamento apenas que socialmente se esteja a interferir em algo tão importante como o Parto e Nascimento. Cegas com o que a medicina nos vende como seguro, a verdade é que tal como o desenvolvimento em tantas áreas se veio a mostrar inimigo da humanidade, receio o que daqui a muitos anos possamos vir a saber sobre tantas intervenções que apesar de "vendidas" como seguras, não estão minimamente estudadas...

Engim, junto-me a ti, no nascimento da Rita senti esta Doce dor e espero voltar a senti-la novamente no meu segundo parto! Mas desta vez sem estratégias psicoprofiláticas para fugir da dor. Pelo contrário, desta vez quero estar com ela, Ouvir tudo o que tem para me ensinar e orientar. Se tudo me correr como desejo e se a natureza nos sorrir...

Pois é... estou a partilhar com o Fórum que estou Grávida! Já lá vão 17 semanas e se tudo correr como prevê a natureza darei à luz final de Maio, inicio de Junho! A Rita vai ter um mano ou uma mana!
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joana zilhao



Registo: 27 Jan 2007
Mensagens: 33
Local/Origem: Porto

MensagemColocada: Ter Dec 16, 2008 11:57 am    Assunto: Responder com Citação

PARABÉNS Sandra!!!!!!!!!!!!

Que bom!!!!!!!!!!! Nem imaginas a vontade que eu tenho de ter o meu terceiro, e depois de tudo o que tenho lido e estudado sobre o parto garanto-te que vai ser bem diferente dos anteriores. Ai, se eu pudesse contar contigo:):) isso é que ia ser!!!!!

Silvia, de qualquer forma impressionou-me bastante a tua descrição, seja de parto ou de dores, para mim acredita que foi uma mais valia!!!

Tudo de Bom para voces, Grandes Mulheres!

Beijo
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S. Oliveira-BioNascimento
Site Admin


Registo: 25 Mai 2005
Mensagens: 477

MensagemColocada: Ter Dec 16, 2008 12:02 pm    Assunto: Responder com Citação

Obrigada Joana!

Lê o testemunho da Sílvia! É incrível!

Beijos para ti também, que também és uma Grande Mulher!
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joana zilhao



Registo: 27 Jan 2007
Mensagens: 33
Local/Origem: Porto

MensagemColocada: Ter Dec 16, 2008 2:00 pm    Assunto: Responder com Citação

Acabei de ler o testemunho da silvia "O nascimento do Carlos", não tenho palavras para descrever o que sinto...fantástico!!!

Enquanto espero que chegue a hora de ir dar aulas, tenho de controlar a minha emoção para que ninguém perceba que choro, depois de ter lido este fantástico testemunho....estão-se a dissipar as minhas dúvidas para um próximo parto.
Obrigada,
Beijos
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Sílvia



Registo: 24 Ago 2005
Mensagens: 97
Local/Origem: Odivelas

MensagemColocada: Ter Dec 16, 2008 5:19 pm    Assunto: Responder com Citação

Ena, Joana! Antes de mais nada: olá, colega!

Sabes que quem viveu este parto na primeira pessoa perde um bocado essa noção de arrebatamento... Mas olha que eu própria me comovo, ainda hoje, quando o releio... e, volta não volta, sinto desejo, vontade - ganas mesmo! - de o reler... e faço-o com alguma frequência. Entendo muito bem que semelhante descrição te deixe à beirinha de nova tentativa, eu própria sinto isso - se fosse mais abonada financeiramente (não era preciso muito, só o suficiente para lhes garantir formação de qualidade) acho que iria ao terceiro, quarto, sei lá eu mais até onde!... Porque esta é uma particularidade de partos assim - a Sandra que te diga, se isto não é verdade! - tornamo-nos eternamente dominadas pela ideia do "só mais um, por favor!"

Sandra (agora para ti):

Se a natureza te sorrir???!!! Oh, mulher!!! Pois se és, tu própria, um sorriso da Natureza!!! Pois claro que correrá tudo como desejas, porque TU QUERES! TU QUERES, TU PODES, TU TENS!

;)
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