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Lacerações no períneo
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Autor Mensagem
lpissarra



Registo: 17 Abr 2008
Mensagens: 5

MensagemColocada: Qui Abr 17, 2008 6:38 pm    Assunto: Lacerações no períneo Responder com Citação

Ainda n fui mãe, mas tenho várias amigas q o foram recentemente e já penso nisso seriamente. um dos aspectos do "processo" que mais me preocupa é, sem surpresa, o parto e todas as "assustadoras" "manobras" obstétricas q os profissionais de saúde se sentem no direito/dever de usar, com pouca intervenção/escolha da mulher q sofre essas "intervenções" q têm o nobre propósito de trazer ao mundo um saudável bebé, embora por vezes com pouca consideração pelo sofrimento da mãe durante e depois do parto.
Embora fale como "espectadora", sou à partida adepta de um parto natural e não medicalizado, tanto qto possível. Isso implica rejeitar (à partida... embora a situação à chegada possa ser outra...) o parto induzido, a anestesia epidural, a episiotomia e os fórceps e ventosas. Pq normalmente estas intervenções ocorrem em cadeia, umas levando às outras.
Nisto tudo o q mais me impressiona é a episiotomia e as consequências q ela deve acarretar. Após a cicatrização do corte a pele continua como antes? Há perda de elasticidade e flexibilidade da pele? Há reabertura da ferida? Há consequências ao nível sexual? Gostava muito de saber algumas destas respostas pq a maioria da literatura é bastante omissa qto às consequências a longo termo da episiotomia e, embora não tenha passado por tal, já tive lacerações no períneo q têm alguma semelhança com esse tipo de ferida e ainda estou a aprender a geri-las.


Obrigada a todos,

L
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S. Oliveira-BioNascimento
Site Admin


Registo: 25 Mai 2005
Mensagens: 477

MensagemColocada: Sex Abr 18, 2008 7:42 pm    Assunto: Re: Lacerações no períneo Responder com Citação

Olá,

As tuas questões são definitivamente muito pertinentes, e tens razão, há realmente ausência de estudos que avaliem essas consequências...talvez por elas serem óbvias...mas infelizmente não tão óbvias o suficiente para que quem de direito consiga não colocar a tesoura nos kits de parto, de forma a que se recorresse a ela de uma forma pensada e ponderada e não espontânea como lamentavelmente apesar das evidências científicas, continua a acontecer.

Faço uma analogia, para mim a tesoura deveria estar para o kit de parto, como está o Kiwi (nome pelo qual muitos médicos chamam a ventosa, penso ser a marca do instrumento) e os Fórceps. Também não fazem parte do kit, têm que os ir buscar e pensar quando é que realmente necessitam deles (bem, isto alguns médicos claro, porque outros assumem que utilizam sempre e há mulheres que até ficam todas contentes com isso, e acreditam que é realmente melhor assim...pobres bebés que levam com estes instrumentos por rotina, assim como pobres mulheres que são sujeitas à episiotomia...).

Como qualquer outra cicatriz, a resposta a praticamente todas as tuas perguntas é sim:

Após a cicatrização do corte a pele continua como antes?
Não, e inclusivé num segundo filho, independentemente do tempo que passou, uma episiotomia anterior aumenta a probabilidade de laceração mais grave (isto é o que tenho constatado dos acompanhamentos que já fiz)

Há perda de elasticidade e flexibilidade da pele? Sim, como qualquer outra cicatriz

Há reabertura da ferida? Sim, pode acontecer e daí muitas vezes o aumento de morbilidade materna

Há consequências ao nível sexual? Claro! às vezes os homens têm dificuldade em entender isto, porque lamentavelmente há pouca transparência a tratar esta questão, até por nós mulheres. O retorno à vida sexual é dificil, e muitas vezes é feito debaixo de dor e sem prazer para a mulher, e fá-lo porque percebe a necessidade de o fazer para o seu bem estar da vida conjugal...é assim que algumas mulheres me confessam ter sido com elas e foi assim comigo.

Ao contrário do que a maioria das mulheres portuguesas pensam, as lacerações não são piores de recuperar, isso como eu costumo dizer é conversa da treta de alguém que se aproveita de mulheres desinformadas...

Ai...ficava aqui a noite toda a falar deste assunto...mas tenho que me conter...

Obrigada pela excelente questão!

Bjs
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lpissarra



Registo: 17 Abr 2008
Mensagens: 5

MensagemColocada: Sex Abr 18, 2008 8:16 pm    Assunto: Responder com Citação

Obrigada pelas respostas! :)
Pois, eu já suspeitava q a resposta às minhas dúvidas seria essencialmente positiva, à excepção da primeira... pq me parecia q após um trauma (o corte) desses (n simplesmente uma ferida superficial) numa zona que me parece ser bem mais frágil q a pele noutras partes do corpo, as coisas não ficariam exactamente como "antes".
No entanto a dúvida persistia pq de facto é algo de q ninguém nunca fala. Principalmente as mulheres! Por um lado parece-me q é algo q é encarado como "normal", uma espécie de "sacrifício" feito em prol dos filhos. Dos vários casos de partos "complicados" (quase todos induzidos) de q falei com amigas, esse é um pormenor sempre muito "menor". Daí a ideia de q talvez fosse algo que se tornasse perfeitamente irrelevante pouco tempo depois do parto.
E já agora, para além dos "pontos" que ajudam à cicatrização, que outras medidas se podem usar para favorecer uma maior flexibilidade/hidratação da pele de modo a facilitar a cicatrização/regeneração para além do período pós-parto e para quando a ferida reabre?
De novo, obrigada, é bom poder falar abertamente destes assuntos ainda meio tabus.

L
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S. Oliveira-BioNascimento
Site Admin


Registo: 25 Mai 2005
Mensagens: 477

MensagemColocada: Sex Abr 18, 2008 10:00 pm    Assunto: Responder com Citação

Bem a melhor recomendação é efectivamente fugires da episio e de todas essas escaladas de intervenções, parece-me seres uma mulher que procura a informação, não para te conformares com o quanto as coisas são mal feitas, mas sim para que nem sequer te exponhas a elas, ou estarei enganada?

Para te ser honesta, prefiro muito mais estimular as mulheres a se prepararem e a saberem dizer não há episio do que lhes ensinar a sará-la...isso é o que se tem feito estes anos todos e o resultado é o que tu sabes...mulheres conformadas com o acto, como se fosse normal...

Se queres sentir que estás a preparar o teu períneo para que não lacere ou que faça uma laceração de menor grau, isso sim, digo-te o que fazeres:

Exercícios de Kegel e Massagem do Períneo - os primeiros há imensa coisa na internet, sobre o segundo tens informação aqui no nosso site:
http://www.bionascimento.com/index.php?option=com_content&task=view&id=114&Itemid=37

Depois faz um plano de parto e deixa muito clara qual é a tua posição relativamente à episio, e procura ter alguém contigo no parto que na hora certa lembre quem de direito da tua vontade...caso se esqueçam...

Bjs
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S. Oliveira-BioNascimento
Site Admin


Registo: 25 Mai 2005
Mensagens: 477

MensagemColocada: Sex Abr 18, 2008 10:16 pm    Assunto: Desabafo Responder com Citação

Esta semana estive num parto hospitalar, desculpem mas realmente estou com muito pouca paciência para procedimentos que envolvam más práticas...acho que já chega de quem de direito não fazer nada para mudar as coisas...aprender a fazer bem, e aprender a exigir que as coisas sejam bem feitas....

Ao fim de quase 3 anos andar a trabalhar arduamente e a acreditar que a mudança estava a chegar, e esta semana cair na realidade e perceber que afinal parece que são apenas 2 os hospitais a nível nacional que estão efectivamente a fazê-lo, deixa-me muito triste e com pouca vontade de ser politcamente correcta com estas questões...

Desculpem, mas realmente estou numa fase nada boa para estas questões...por isso acabei por ser um pouco "ríspida"...

Sorry
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Sílvia



Registo: 24 Ago 2005
Mensagens: 97
Local/Origem: Odivelas

MensagemColocada: Sáb Abr 19, 2008 12:00 pm    Assunto: Responder com Citação

Olá a todos!

Bom, venho então deixar o testemunho como mãe que passou por duas experiências distintas: uma episiotomia (1º parto há 3 anos atrás) e laceração espontânea do períneo (há 2 meses). Mil vezes preferível a segunda! Escuso-me aqui a expor os danos da episiotomia a que fui sujeita, porque o meu triste caso não tem forçosamente de se repetir com outras mães, mas destaco o facto de, após a laceração espontênea, ter recuperado plenamente a minha mobilidade ao fim de 8 dias e a minha vida sexual activa ao fim de 25 dias, sem qualquer marca de que aperceba. De tal maneira que, se viesse a passar por um novo parto, a questão da laceração do períneo jamais seria para mim uma grande preocupação.

;)
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Elisa Santos



Registo: 28 Ago 2007
Mensagens: 48
Local/Origem: Porto

MensagemColocada: Ter Abr 22, 2008 11:01 am    Assunto: Responder com Citação

Olá
A episiotomia é uma prática que está em desuso em algumas maternidades mas só em algumas assim como o corte dos pêos púbicos...mas na verdade muitas mulheres continuam a aceitar a episiotomia sem a contestar assim como já chegam às maternidades com os pêlos púbicos rapados...Todas as mulheres que ingressam numa maternidade assinam um papel que se chama CONSENTIMENTO INFORMADO. Claro que a maioria não tem noção do que está a assinar...porque aquilo que assinam é um papel em que consentem a assistência ao parto e tudo o que imploca MAS, esse consentimento só é válido, SE e SÓ SE, quem o assinar for informado de riscos e benefícios, alternativas e estatísticas desses mesmos riscos e alternativas. Só assim é que as mulheres deveriam assinar ...embora esse mesmo consentimento possa ser revogado em qualquer altura pela própria pessoa que o assina. Por outro lado, cabe às mulheres fazerem a mudança e exigirem os seus direitos. A episiotomia pode ser considerada ( e é-o em alguns países) como uma forma de violência aos direitos reprodutivos da mulher. Cabe pois a nós mulheres lutarmos pelos nossos direitos e assumirmos o que queremos e não queremos que façam ao nosso corpo. A episiotomia pode ser recusada por qualquer mulher depois de esta ser informada das vantagens, desvantagens e consequências.
Desculpem o discurso inflamado mas a verdade é que nós mulheres temos uma parcela de culpa ao entregarmos cegamente o nosso corpo aos "especialistas" acreditando em tudo e não questionando nada.
Bjo
Elisa
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S. Oliveira-BioNascimento
Site Admin


Registo: 25 Mai 2005
Mensagens: 477

MensagemColocada: Ter Abr 22, 2008 12:10 pm    Assunto: Responder com Citação

Ai Elisa...isto dava pano para mangas...

Todas as mulheres assinam? São várias as mães que acompanho que a única coisa que assinam é o termo de responsabilidade da epídural...e que a Elisa sabe bem em que condições emocionais é que são assinados. Será que esse todas as mulheres assinam não é só no hospital S. João? E por curiosidade, no S. João assinam em que momento?

Esta questão dos termos de responsabilidade dava um belo debate. É muito curioso ver como em Portugal as mulheres são tratadas como ignorantes...no último parto em que estive num hospital, a mamã levava um plano de parto em que referia que:
- o recurso a oxitocina, ventosas ou fórceps só deveria ser feito com o seu consentimento.

Lamentavelmente o parto terminou numa cesariana, depois de uma escalada de intervenções às quais naturalmente ela estava demasiado fragilizada no momento para "lutar" contra elas, até porque entrou com uma situação de tensão arterial alta.

Mas o engraçado foi que no momento da alta, o obstetra que estava a verificar o processo, deparou-se com o plano de parto, e ironicamente foi comentando cada um dos pontos (que eram apenas 5), quando chegou a este que mencionava os fórceps e a ventosa, disse-lhe:
- mas isto é uma decisão do médico!
Quando ela me contou eu claro que não fiquei surpreendida, e respondi-lhe é uma decisão do médico em Portugal, porque num país desenvolvido as mulheres assinam um termo de responsabilidade isento e informativo dos prós e contras de todas as intervenções que impliquem riscos, inclusivé os fórceps e ventosas.
Ora com este tipo de postura em que nós mulheres somos tratadas como seres analfabetas e que não sabemos pesquisar e interpretar guidelines médicas, numa àrea da saúde, que de doença poderia ter muito pouco, como é a gravidez e o parto, não admira que a Obstetricia seja a especialidade com mais processos júridicos...pois que me desculpem os senhores doutores, mas realmente merecem-nos e bem, pois parece que nem se "defenderem e precaverem" sabem. Talves quando perceberem qual é a essência do papel do obstetra, consigam alcançar o respeito necessário pela mulher de forma a serem menos processados e a conseguirem melhores resultados.

O que se está a passar em Portugal nos cuidados que são prestados às mulheres na gravidez e no parto é vergonhoso e só acontece porque definitivamente estão a tirar partido não só de falta de informação generalizada e transversal da sociedade portuguesa, como também do momento frágil como é o parto, em que nós mulheres receamos as represálias e consequências que os nossos actos possam ter nos nossos bebés, daí que algumas mulheres de garra como eu já tive a felicidade de me cruzar com várias se calem e deixam para depois esta batalha.

Isto é um assunto que tem que vir para a praça pública e ser debatido com muita seriedade, mas com mulheres informadas e esclarecidas...não é como eu soube há uns dias o que foi feito no programa do Luis Goucha, a propósito do parecer da ANB sobre a cesariana, em que uma obstetra, levou uma paciente para explicar uma escolha de ambas por uma cesariana electiva, e qual o meu espanto quando me contam que o motivo foi receio de incompatibilidade feto-pélvica porque a mulher era pequena e o bebé muito grande (entenda-se grande de 3.300kg)! E isto aconteceu numa televisão portuguesa com milhares de pessoas a ver! É assim que se cultiva e fomenta a ignorância!!
Quando cientificamente está provado que a incompatibilidade feto-pélvica só pode ser diagnosticada durante o trabalho de parto. E é algo efectivamente muito raro, mas parece que em Portugal, apesar de "ancas largas" andamos todas muito incompativeis para dar à luz os nossos filhos competentemente (como há uns tempos me disse um médico).
Resta saber se as más práticas e incompetências diagnosticadas são feitas conscientemente ou também por desconhecimento das evidências cientificas, seja qual for, é grave!

Bem vou-me "calar"...Sei que a Elisa me compreende, e sei que a Elisa é uma peça "fora do baralho" no bom sentido. É bom tê-la aqui a lançar estas questões.

Bjs
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Elisa Santos



Registo: 28 Ago 2007
Mensagens: 48
Local/Origem: Porto

MensagemColocada: Ter Abr 22, 2008 1:21 pm    Assunto: Responder com Citação

Olá
Infelizmente tenho que dar razão à Sandra... As condições nas quais se assina o termo de responsabilidade não são as ideais, longe disso...A admissão das mulheres em trabalho de parto é efectuada num momento de grande fragilidade para a mulher, que está assustada pela situação em si, pelo receio da dor e pelo ambiente pouco familiar (para não dizer hostil)... E também é verdade que o documento que assinam não está especificado o risco, a alternativa e a estatística...
A mamã que a Sandra descreve levou um documento que manifestava a sua vontade, um documento escrito que tem valor legal e que DEVERIA ser respeitado. O facto de não ser respeitado a mamã ou o seu representante tem a legitimidade de questionar o porquê do seu incomprimento. Também sei (infelizmente) que os profissionais sabem como contornar essas questões "jogando" com o medo que as mamãs têm que algo de mal aconteça ao seu bébe...é por isso que recorrem às instituições de saúde para terem os seus bébés, porque à partida, elas (instituições) garantem uma assistência melhor e uma minimização dos riscos.......Assistência melhor e minimização dos riscos pode ser uma falácia....
Concordo com a Sandra quando diz ser necessário fazer chegar a informação à população feminina. Concordo com a necessidade de dismistificar o parto e a assistência ao mesmo assim como com o debate do consentimento informado. O consentimento deriva do direito à auto determinação da pessoa, é a liberdade de escolha e para podermos fazer uma escolha consciente e informada necessitamos de saber as vantagens, os riscos, as probabilidades e as alternativas. Isto só se consegue ao longo da gravidez através de um bom acompanhamento pré natal que neste momento está nas mãos dos médicos...sendo preciso mudar. Mudar a consciência feminina em toda a sua linha: futuras mamãs, enfermeiras, médicas, parteiras...
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lpissarra



Registo: 17 Abr 2008
Mensagens: 5

MensagemColocada: Ter Abr 22, 2008 3:56 pm    Assunto: Responder com Citação

Embora tenha ficado agradavelmente surpreendida pela possibilidade de se poder apresentar à equipa médica que assiste ao parto um “plano de parto” com os desejos da mãe/casal, não me espantou nada, nem me parece q altere a questão, que haja um termo de responsabilidade cuja assinatura, como todos os papéis q assinamos, pressupões o consentimento INFORMADO. Mas no fundo isso não é um pro-forma? Não se assinam termos semelhantes qdo somos sujeitos a uma cirurgia? E sabemos o q lá diz? É possível não o assinar? Qual é a consequência de o rejeitar? Numa cirurgia, se não assinarmos não somos operados! Se rejeitamos os “protocolos” oferecidos pelo hospital, então parece-me “lógico” que o hospital/equipa médica decline responsabilidade dos perigos eventuais. Parece-me q é procedimento standard, para cirurgias ou partos!
Se se considera q o parto é um acto médico (é? Socialmente é visto como tal!) e se lhe atribuimos (co-)responsabilidade pelo processo, não lhe podemos tirar a capacidade de decisão. Claro que podemos (e eu creio q devemos) ter preferências, mas a sua aceitação é obrigatória pela equipa médica? Eu acho q sim, mas na prática isso é possível/real?
Os médicos, para além do conhecimento técnico q os impele a ser muito pro-activos, sabem acima de tudo defender-se do eventual erro. Um modo de evitar o erro é preservar a informação. Outro é rejeitar opiniões contrárias. Nunca passei por um parto mas sei um pouco do q falo pq tenho médicos na minha família mais próxima e tenho também formação não médica mas na área da bioquímica/fisiologia e já várias vezes tive de mudar de médicos com quem discordava no diagnóstico ou tratamento e q se mostraram completamente indisponíveis para aceitarem a minha opinião ou capazes de me convencerem, através de informação concreta, do meu erro. E se normalmente o médico seguinte acaba por me “dar razão”, nestes caso eu preferia não a ter e não ter perdido tempo e dinheiro.
E a “culpa” é dupla. Os médicos são por “natureza” donos da verdade acerca dos procedimentos médicos, dificilmente aceitando ser questionados ou opiniões diferentes no q é o seu “domínio” e a população em geral e as mulheres em particular mt ignorantes em questões médicas, “contaminadas” de informações erróneas nesta área como em tantas outras... e na dúvida confia-se no “Sr Doutor”, o q dá não só conforto psicológico de se estar a tomar a “melhor” decisão, alivia o peso da responsabilidade ou eventual culpa.
Além disso é socialmente aceite. Tal como é socialmente aceite o agora hábito das cesarianas electivas. Estabelecem-se limites de dias, de horas e fora disso é “inconveniente”. Incompatibilidade feto-pélvica? Qdo eu nasci, nos anos 70, n havia ecografias e a minha mãe ganhou pouco peso, pelo q se supôs q eu seria de tamanho “médio”. Mas eu nasci com 4,2 kg e sempre tive um diâmetro encefálico bem superior à média (n faço ideia de qual percentil se me aplicava, mas seria na cauda superior da curva de Gauss), mas nasci por via vaginal. Sei q não “fui” fácil, mas nasci qdo e como a natureza “mandou”. Hj parece-me q já n seria assim. Seria mais ou menos seguro? Não sei...
E o inverso não é socialmente aceite. A opinião geral é de q um parto “natural” é “medieval”. Só “hippies” pensam em ficar em casa durante parte da fase de dilatação ou rejeitar a indução ou a epidural à partida (embora talvez não “à chegada”). Como evitar os pensamentos de “e se...”. é tão mais fácil deixar a decisão na mão de outro, principalmente se se trata de um “profissional”!
E como impor a nossa opinião face a um conjunto de profissionais q estão a “fazer o seu dever”? E que provavelmente n conhecemos pessoalmente? Há a considerar não só o lado “técnico” da questão mas a humana. Os dados científicos não são sempre preto/branco. Há a utilização que se faz deles. E frequentemente acredita-se no que se quer acreditar...
Desculpem o tamanho do cometário...eu sei q n passei ainda pela experiência, mas já me indigna o suficiente ver o q passam as minhas amigas. E de “dados científicos” e do uso q deles se faz tenho eu muita prática...
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S. Oliveira-BioNascimento
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Registo: 25 Mai 2005
Mensagens: 477

MensagemColocada: Ter Abr 22, 2008 10:10 pm    Assunto: Responder com Citação

Bem Luisa, para quem ainda não foi mãe, dominas realmente muito bem o cerne da questão.

Conheço quem tenha nascido com 5.200 e por via vaginal, e como dizes, não foi fácil, mas sobreviveu e ainda voltou a ter filhos e novamente por via vaginal...mas claro outros tempos, talvez outras mulheres...


Para mim os médicos não são para tomar decisões, mas sim para nos auxiliarem na informação e no diagnóstico, de forma isenta e cientificamente actualizada. Se têm outras convicções, acho que o deve transmitir, mas a decisão e responsabilidade das escolhas deverá ser sempre do utente e/ou familia. Isto no parto e em qualquer outro tipo de situação da saúde. Na minha opinião só não deverá ser assim quando a tomada de decisão é urgente e está em causa salvar vidas.


Mas claro, isto implica uma mudança na mentalidade de todos nós na forma como encaramos não só a nossa saúde, como a função do médico/ profissional de saúde.

É como dizes, é realmente mais cómodo assim...como tantas outras coisas...esta situação que vivemos na saúde é bem demonstrativa do estado da nação em que vive a sociedade portuguesa...colocamos tudo "nas mãos" dos outros...e depois queixamo-nos que levamos mais de 30 anos de atraso dos demais países da Europa...assim havemos de chegar bem mais longe no atraso...Nisso estamos definitivamente num bom caminho...

Nesta questão do parto tenho acima de tudo pena dos bebés que nascem neste contexto. Eles sim, são as grandes vítimas de tanta acomodação e incompetência.

Bjs
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Elisa Santos



Registo: 28 Ago 2007
Mensagens: 48
Local/Origem: Porto

MensagemColocada: Qua Abr 23, 2008 9:36 pm    Assunto: Responder com Citação

Olá
O consentimento informado, só é um pró-forma se quem o assinar assim o quiser. Em 1979, T.L. Beauchamp e J. F. Childress, publicaram o livro Principles of Medical Ethics onde enunciaram os quatro princípios éticos fundamentais da bioética: beneficência, não maleficência, autonomia e justiça. Estes princípios são no âmbito das ciências médicas e de enfermagem, o conjunto de normas que pretende materializar o princípio formal de que todos os seres humanos merecem absoluta consideração e respeito. Cada um deles deriva de juízos ponderados da moral comum e da tradição médica e de enfermagem, fazendo assim parte do nosso património cultural. O princípio do respeito pela autonomia individual refere-se ao direito de cada pessoa ao seu “autogoverno”. Este princípio decorre naturalmente da doutrina da dignidade humana e dos direitos humanos fundamentais. É, no fundo, o exercício da liberdade da pessoa enquanto agente social. Na prática de saúde, a adopção deste princípio implica que os profissionais de saúde passem a ter em linha de conta a vontade dos doentes. O princípio de autonomia formula-se afirmando que uma pessoa deve ser livre para tomar decisões e actuar sem constrangimentos impostos por outrem. É do princípio do respeito pela autonomia que deriva directamente o direito do utente à informação detalhada da sua situação clínica, assim como ao consentimento informado e esclarecido, à confidencialidade e ao sigilo profissional. Segundo Beauchamp e Childress, o consentimento informado é constituído por cinco elementos distintos: competência, comunicação, compreensão, voluntariedade e consentimento. Estes elementos são a base para que o consentimento possa ser considerado válido. O agente dá o consentimento informado se for competente para agir, se lhe for fornecida a informação completa, se a compreender, se decidir voluntariamente e se consentir a intervenção. O termo consentimento esclarecido ou informado refere-se ao documento assinado pelo paciente, ou o responsável, dando o consentimento ao profissional de saúde para a realização de determinado procedimento de diagnóstico ou terapêutico após ter recebido informações pertinentes, o qual, tem como finalidade garantir a autonomia do paciente e delimitar a responsabilidade ao profissional que realiza os procedimentos. Todavia, o formulário de consentimento, por si só, não constitui o consentimento informado mas sim, um componente chave do referido processo. A legalidade do consentimento é válida quando acompanhado de informações sobre a evolução do caso e dos riscos normalmente previsíveis, em função da experiência habitual e dos dados estatísticos. O consentimento informado não é só firmar um formulário é fornecer toda a informação adequada referente fundamentalmente a benefícios, riscos e alternativas das ditas intervenções. A aplicação do consentimento informado na prática, gera diversos problemas relativamente sobre a quantidade de informação e o modo como transmiti-la, assim como, a avaliação da capacidade do utente e a autenticidade das suas decisões. Em casos de particular conflito, há que encontrar o melhor equilíbrio possível entre o devido respeito pela autonomia da pessoa e o dever que o profissional tem de protegê-la de danos e procurar o melhor para ela (princípio de beneficência). O consentimento do utente representa uma delegação de poderes para aquilo que necessariamente deve ser feito. A licitude de um acto médico não pode apenas ficar na dependência da vontade de uma pessoa. O que legitima não é a sua permissão, mas sim a sua indiscutível necessidade. Se na patologia a competência dos profissionais é demonstrada pela sua capacidade de agir prontamente para identificar um diagnóstico e propor ágil o efectivo tratamento, no acompanhamento dos processos fisiológicos o profissional deve adoptar uma atitude expectante, respeitando assim o desenrolar desse processo, evitando intervenções desnecessárias que possam perturbar o seu bom andamento, e agir apenas caso e quando haja imperativo. Afinal, os profissionais de saúde exercem uma actividade de serviço às pessoas com o propósito de que se mantenham com saúde, respeitando a sua integridade e os preceitos éticos de beneficência, não maleficência, autonomia e justiça.
O parto não é necessariamente um acto médico a não ser que a mãe ou o bebé tenham alguma patologia. O controlo da medicina sobre os nascimentos apoia-se no desejo dos pais, de fazerem o melhor para os seus filhos e sobre a ignorância desses pais em relação ao facto em si (todo o processo da gravidez, parto e puerpério). Essa ignorância é mantida por aqueles que têm interesse em permanecer os “especialistas” na assistência à mulher grávida. Como os homens estão acostumados a controlar as mulheres, os obstretas dirigem o parto (ou, pelo menos, aparentam dirigi-lo) com equipamento electrónico. Os futuros pais sentem-se tranquilos quando vêem a tecnologia disponível nos hospitais, acreditando que nada pode correr mal com tanto equipamento disponível. A ideia do nascimento no hospital, um local onde a equipe de saúde “se ocupa de tudo” pode dar a impressão de que o casal não tem uma parte de responsabilidade no acto do nascimento. Aquilo que uma pessoa acredita é extremamente influenciada pela cultura em que vive. As crenças tidas em comum perpetuam o tipo de sociedade em que vivemos. Normalmente é a enfermeira parteira quem assiste o parto normal, principalmente no turno da noite ;)) A enfermeira de saúde materna e obstétrica (parteira) está credenciada para assistir os partos de baixo risco.
Claro que é mais fácil deixar os outros decidirem por nós, iliba-nos de responsabilidades mas a responsabilidade é preço da nossa auto determinação, do nosso direito à livre escolha : )
Desculpem o “testamento”…
Bjo
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lpissarra



Registo: 17 Abr 2008
Mensagens: 5

MensagemColocada: Dom Abr 27, 2008 7:42 pm    Assunto: Responder com Citação

Ora essa! N há qq pedido de desculpa a fazer ou aceitar!
Creio q toda/os concordamos com a mesma ideia geral: q o parto é um processo fisiológico que devia decorrer com um mínimo de intervenções, as quais têm as suas indicações próprias.
No entanto não é essa a realidade global, pois n?
Vivemos numa cultura saturada de informação mas q mts n sabem digerir. E isso assusta. Prescindir de decidir, deixar ao critério do "profissional", resolve-nos esse problema. E tranquiliza a consciência. Não digo que seja o procedimento correcto... mas não se tem generalizado?
Fóruns como este ajudam à tomada de uma decisão consciente, informada e responsável.
Para q talvez comecemos a caminhar numa outra direcção?...

L
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hecep



Registo: 26 Mar 2008
Mensagens: 58

MensagemColocada: Sáb Mai 17, 2008 12:26 pm    Assunto: Responder com Citação

Eu tenho sentimentos muito ambivalentes em relação ao que aqui foi dito.

1º não me lembro de ter assinado nenhum papel, nem me lembro de ninguém cá alguma vez me ter falado nisso, acho que não se pratica isso aqui no Faial, ou então sou eu que esqueci completamente esse facto.

No hospital cá dão uma aula sobre o parto que a mim me pareceu excelente no sentido em que ao menos a pessoa não vai para o desconhecido, pode fazer perguntas, vê a sala onde acontece a dilatação e a sala de expulsão, o sítio onde lavam o bébe e o pesam e dão o "pppiiiiii" do soro glucosado (tenho-lhe uma certa raiva). Na dita aula eu levava uma folha A4 de perguntas. O que me responderam à questão da episiotomia é que faziam sempre, às vezes num 2º filho e se fosse a enfermeira a assistir ao parto faziam um corte muito mais pequeno, mas num 1º filho não havia volta a dar. Deram-me a entender que não tinha mesmo opção, faziam a episiotomia quer eu concordasse ou não. Confesso que tb não quis levantar muitas ondas pois não queria ter um bébe em casa e cá não há mais hospitais, era o meu 1º filho e não queria que pensassem que eu era embirrante. Impliquei tb com o raio da maca do parto mas tb me disseram que não havia opção. O soro glucosado idem e confesso das coisas com que embirrei esta é até agora a que mais me chateou.
Uma amiga minha teve uma bébe uns meses mais tarde, questionou muito mais que eu estas práticas, incluindo junto do médico (eu sou questionei a enfermeira que deu a aula sobre o parto) e tb lhe disseram isso mesmo que não havia qq hipótese das coisas serem feitas de forma diferente.

O parto do meu filhote foi bastante intervencionado (foi provocado e clássico, deitada e com episiotomia) mas correu especialmente bem eu acho para as circunstâncias, começaram a provocar o parto às 9, o meu foilhote nasceu às 15:42. Ainda pedi a epidural lá mesmo para o fim mas foi mesmo na altura em que dilatei o que faltava e não chegaram a dar. No fim mesmo do parto às tantas deixaram de ouvir o coração do bébe mas depois voltaram a ouvir. Quando ele nasceu verificou-se que havia um nó no cordão umbilical. E daí grande parte da ambivalência que sinto: será que se tivem visto o nó antes tinham feito uma cesariana? Será que deixaram de sentir o bébe devido a alguma posição estranha em que ele estava ou porque ele esteve ali uns momentos mal? Ele depois de nascer pareceu-nos óptimo, apgar 9 e passado 5 minusto apgar 10. Mas e se ele realmente tivesse tido algum problema com o tal nó, num parto menos intervencionado, sem oxitocina, logo mais longo, não teria o bébe mais hipóteses de morrer ou ter sequelas? Eu consenti a que provocassem o parto com 40 sem e 5 dias de gestação, se calhar se tivesse esperado mais tinha-me arrependido. Sinceramente não sei o que hei de pensar. Tenho uma amiga cujo filho estava tipo enforcado pelo cordão umbilical e só detectaram mesmo no parto, fizeram uma cesariana de urgencia e salvaram-no. O que teria acontecido se ela não tivesse ligada ao CTG?
A minha sogra teve o 1º filho em casa, com assistência de uma parteira das antigas e o 2º filho no hospital, com oxitocina, episiotomia, etc e diz que preferiu 1000 vezes o hospital. Não sei o que pensar realmente.
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Elisa Santos



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MensagemColocada: Sex Mai 23, 2008 1:15 pm    Assunto: Responder com Citação

Não sei que lhe diga…acho que muitas vezes os próprios profissionais têm medo da mudança. Foram treinados para serem intervencionistas e quando alguém os confronta, defendem-se com os seus protocolos rigidamente instituídos pelas hierarquias que se acham detentoras do saber e do poder. Por outro lado, as mulheres muitas vezes têm medo de retaliações e não conseguem levar para a frente os seus direitos e desejos, seja por medo seja por ignorância (ignorância sobre os termos e o mundo da obstetrícia). Quanto a não haver maneira de fazer as coisas de modo diferente…não sei…. Na minha humilde opinião é porque a grande maioria das mulheres não questionam as práticas… por isso tem o impacto que tem.
Já tenho assistido a um grande número de partos cujo bebé tem uma circular ou mais à volta do pescoço (cordão enrolado) e não é impeditivo de parto vaginal. Claro que a vigilância não pode ser descurada seja em meio hospitalar seja no domicílio. O nó verdadeiro do cordão (porque também existe o chamado falso nó) não é detectado ecograficamente pelo que é sempre um risco independentemente de ser no hospital ou em casa. Só é detetado durante o trabalho de parto e mesno assim não se tem a certeza até que o bebé nasça.... É claro que com uma indução é mais rapidamente levantada a suspeita.. A ambivalência que diz sentir é normal. Nós nunca temos a certeza que a decisão que tomamos é mesmo a mais correcta. Qualquer escolha que façamos tem os seus prós e contras, mas nós optamos sempre por aquela que nos parece ser mais apropriada apesar de posteriormente arrependermo-nos, ou não…
O meu filho, nasceu com um Apgar de 5 no hospital, rodeado de obstetras e parteiras e não tinha circular nem nó do cordão nem nada que justificasse o Apgar… a não ser ter nascido no hospital e ser filho de uma enfermeira …
Não sabe o que pensar…e não vou ser eu a dizer-lhe o que pensar… Só você poderá tomar a decisão e viver com ela. Eu confio no meu instinto ;)
Bjo e felicidades
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